Era uma tarde fria e cinzenta. A rua não lhe era estranha. Já havia passado por ali. Ela, sim, estava diferente. Não sentia nada. Pensava assim porque era acostumada a sentir tristeza ou alegrias saltitantes. Mas nada. Estava neutra naquela tarde. Entrou em uma livraria e comprou vários lápis coloridos, borrachinhas diferentes e envelopes de cartas, que talvez nunca sejam enviadas. Saiu feliz, cumprimentou um desconhecido e assim a felicidade foi se hospedando novamente. Sentiu saudade. Uma saudade velha de coisas que ela nem tinha vivido ainda. Mas se sentia feliz com seus gostos e manias infantis, como a de colecionar figurinhas ou lápis coloridos. Ou então rir de coisas tolas até chorar. Não conseguia abandonar os velhos tênis e os velhos hábitos. Ela não conseguia crescer. Não conseguia ser adulta sempre.
Quem observava sua vida, pensava que era um mar sem fim de possibilidades. Mas ela não sabia disso. Sentia-se velha demais para voltar ao balé, medrosa demais para realizar velhos sonhos. E ia vivendo assim - pequenos prazeres - disfarçando o vulcão que carregava em si mesma.
Algumas coisas nunca mudam para ela. Muitas vezes se enxerga como uma menina que está envelhecendo rápido demais. O tempo vem escorregando veloz. Segue detestando os intelectuais pretensiosos, abominando os prolixos – embora desate a falar quando eufórica. Detesta gente feita em série. Segue admirando as pessoas curiosas e puras. Inveja os decididos. Sente pena dos fracos, compaixão pelos que sofrem de amor. Inúmeras vezes chorou sem motivo. Outras tantas dançou sozinha e cantou visceralmente.
Naquela tarde, ao passar por esta rua da cidade, lembrou que um dia saiu do trabalho, no meio do expediente, aos prantos. Era dezembro e na loja ao lado havia uma música natalina irritante-depressiva. Deixou uma cliente falando sozinha e saiu porta afora chorando. Sentia uma dor que nem sabia se era sua. E nesta mesma rua, uma senhora que nunca a tinha visto, ao ver seu pranto, lhe deu um abraço e disse: “seja o que for, passará.”
A frase era clichê. O abraço desconhecido. Mas cumpriu seu papel de deixá-la menos desamparada. O choro da tristeza cessou, mas veio o da comoção pela generosidade de uma estranha.
Agora, feliz, passava pelo fatídico local e pensava em voz alta: "trágica e desmedida, como sempre". Que fim levou a senhora generosa? E a cliente que ficou sem entender nada? Ria de si mesma – mais uma característica imutável. Sempre achava um jeito de rir. E sempre um jeitinho de chorar enquanto a cidade dorme.


2 comentários:
Finalmente abandonou a baixa-estima literária e mostrar um textinho, né? Serei um leitor mais assíduo.
Muito bom, muito bom... é por aí, menina.
Beijo,
Dani
Daniéuuuu, olhos cor de melllll!!!!
Jesus, me abana!
tava lendo a Zero Hora e ví a tua irmã guri. Numa entrevista chic sobre a peça dela em cartaz...
Uma artista na família, ã?
Fico muito boba com o elogio.
Obrigada, querido.
Volte sempre mesmo, mesmo!
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