Quem me vê andando plácida na calçada não sabe que poderei despencar do salto a qualquer momento.
Já despenquei em pleno ponto de ônibus num dia chuvoso. Cai milimetricamente sobre um uma poça dágua. Já caí na escada do trabalho. Já dei aquelas tropeçadas que todo mundo finge que não vê e finge que não está rindo por dentro.
Capotei de bike numa ladeira em frente a casa do menino que eu era apaixonada na adolescência. Ralei os dois joelhos, um cotovelo e paguei o mico do ano.
Já escorreguei derrubando pasta com 500 folhas dentro em pleno hall da faculdade. Já caí da cadeira enquanto o professor falava.
Já paguei calcinha em plena ventania da Hercílio Luz, protagonizando uma cena de "O Pecado Mora ao Lado", versão trash.
O último tombo foi na sexta passada e meu corpo ainda reclama. Caí em frente a escola da Bruna: auditório lotado e plateia vibrando. Sapato para um lado, braço pro outro. Joelho ralado e roxo. Braço machucado. Ombro doendo. Mas nada comparada a dor de dar vexame.
Elegantemente me recompus. A elegância durou até eu dar de cara com um pai espacando o filho na rua, em plena luz do dia e ameçar o sujeito perguntado se ele conhecia o Conselho Tutelar.
Atrapalhada, caio e bato boca quando acho que tenho razão.
Quem me vê do alto do salto com pérolas no pescoço nem imagina do que sou capaz.


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